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"`BC terá de atuar para elevar juros`. Edmar Bacha"

Texto de Fernando Dantas para O Estado de São Paulo.
Publicado em: 10/01/2010

Para Edmar Bacha, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças e consultor sênior do Banco Itaú BBA, 2010 deve ser muito favorável ao Brasil, mas com dois riscos: internamente, de que o Banco Central (BC) relute em subir os juros para conter a demanda aquecida em ano eleitoral; externamente, que um novo agravamento da situação global leve a uma parada ou redução abrupta dos fluxos de capital para o Brasil. Mas ele acha que o câmbio flutuante e as reservas internacionais de US$ 240 bilhões deixam o Brasil bem preparado para a eventualidade de um ajuste externo. A seguir, a entrevista:

Como o sr. vê o ano de 2010 para o Brasil?

O cenário básico é muito favorável. Tem uma recuperação vigorosa depois do desastre que foi o último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. Desde o segundo trimestre de 2009, a economia vem crescendo acentuadamente. Quando se projeta as taxas para a frente, o pressuposto é que o ritmo em que a economia vem crescendo é insustentável, é maior do que o ritmo de crescimento da capacidade de produção. Simplificadamente, a demanda está crescendo mais que a oferta.

Então pode haver aquecimento excessivo?

Dado o ritmo em que a economia está crescendo, e no qual se prevê que continuará a crescer, vai ser necessário o Banco Central atuar para subir os juros. Essa é a grande questão no Brasil neste ano: o Banco Central irá aumentar os juros na medida necessária para esfriar a economia num ano eleitoral? Esse é o maior risco eleitoral, e não o que fará em 2011 quem for eleito.

Por quê?

Porque, pelo lado dos estímulos fiscais, não há nenhum sinal de apaziguamento. O estímulo fiscal já está comprado: o orçamento está aprovado do jeito que foi aprovado, e o Lula ainda quer aprovar a Consolidação da Leis Sociais, que vai codificar e congelar a possibilidade de se fazer ajuste em diversas áreas das contas públicas, especialmente a previdenciária. Então, do lado fiscal não vai ter folga nenhuma e, do lado do setor privado, com os níveis de emprego e com a expansão de crédito que está ocorrendo, a demanda de bens de consumo vai crescer muito. Os programas de investimento estão em significativa expansão. É um quadro parecido com aquele até o terceiro trimestre de 2008: a economia crescendo mais que o potencial, o Banco Central aumentando os juros e o déficit externo também aumentando.

Preocupa o déficit externo?

O Banco Central recentemente reviu a sua estimativa do déficit em conta corrente para 2010 de US$ 29 bilhões para US$ 40 bilhões. No Itaú-Unibanco estamos com US$ 60 bilhões de déficit, mais do que 3% do PIB, e crescendo. Enquanto houver essa pujança de financiamento externo, com o Brasil na moda, os juros muito baixos lá fora e um grande apetite por risco, não haverá muito problema no financiamento de um déficit dessa magnitude. Mas é um déficit alto e crescente. É claro que lá na frente tem pré-sal, mas isso já é uma questão de prazo mais longo. E, no momento, o déficit do Brasil serve bem ao mundo.

O sr. poderia explicar melhor?

Ao contrário do Brasil, que tem excesso de demanda sobre oferta, o problema do mundo é excesso de oferta sobre demanda. Portanto, o fato de ter o Brasil na contramão é uma coisa boa para o mundo, porque aumenta a demanda mundial. Serve para fechar o buraco e aumentar o crescimento, porque o mundo perdeu o consumidor americano, e está em busca, como diz o Ilan Goldfajn (economista-chefe do Itaú-Unibanco), de outro consumidor de última instância. Obviamente, o Brasil não pode substituir os Estados Unidos, mesmo porque não emite dólar e não é da mesma dimensão, mas é um dos países que contribuem para o reequilíbrio global ao ter uma demanda por importações bastante forte.

Mas o sr. não acha que isso é arriscado para o Brasil?

A contrapartida é que, se o mundo precisa da demanda do Brasil, a questão a se saber é se está disposto a oferecer o financiamento que o Brasil precisa para exercer essa demanda. O nosso déficit tem lógica dentro do equilíbrio mundial, mas pode fragilizar a economia brasileira se, por questões sobre as quais nós não temos nenhum controle, houver uma súbita reversão dos fluxos financeiros como houve em setembro de 2008, o que não está descartado. Esse é outro risco. Mas é externo, e não interno. Há ainda uma série de fragilidades na economia internacional, e reveladas aí nos últimos tempos - o caso de Dubai, a quebra do banco austríaco, os problemas da Grécia. Certamente, tem mais coisa debaixo do tapete. Se isso provocar um agravamento da situação econômica global, a principal implicação para nós deve ser uma desvalorização significativa da moeda.

O que fazer para evitar esse risco?

A depreciação não é um risco, mas sim a maneira pela qual a economia trata de se safar. É muito bom que possa haver desvalorização se os fluxos sofrerem uma reversão abrupta. Com menos financiamento externo, a economia vai ter de se adaptar às circunstâncias, e a sinalização disso é a desvalorização cambial. Nesse caso, o País teria de exportar mais e importar menos, provavelmente em condições desfavoráveis lá fora, o que implica um ajuste interno. Mas, com câmbio flutuante e US$ 240 bilhões em reservas, temos como acomodar o choque externo caso ele venha. Outro fator importante é que o nosso financiamento externo seja feito em reais.

Como assim?

Isso mudou muito no Brasil. Quando se fala que déficit em conta corrente da magnitude que vem se prevendo são financiáveis, as pessoas pensam na crise de 80, quando o Brasil tinha déficits financiados por empréstimos externos em dólar. Agora, dois terços do financiamento é em reais, na forma de investimento direto ou em portfólio, isto é, ações ou títulos domésticos de renda fixa do governo. Apenas um terço é de empréstimos em dólar tomados por empresas ou pelo governo. Se os recursos estão em reais, quem perde, em caso de uma depreciação, são os estrangeiros que investiram aqui, porque eles têm ativos em reais e a contrapartida disso são passivos em dólares ou outras moedas fortes do país de origem. Mas o problema é deles, e não nosso.

 
 
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