No artigo de duas semanas atrás, neste espaço (Lições da Grécia Moderna, O Estado de S. Paulo, 29/1), analisei as causas da derrocada da confiança na economia da Grécia, que, tendo atraído a atenção dos mercados financeiros globais, se transformou, desde a semana passada, em foco do que ameaça ser um processo de contágio semelhante ao da crise asiática de 1997. Certamente, não é o tamanho da economia grega que atinge a percepção de risco em todo o planeta financeiro. São o que podemos chamar de aspectos "qualitativos" da crise grega: fragilidade do sistema político, promessas irrealizáveis para eleitor ver.
Ao final do artigo citado, justifiquei nossa preocupação com a crise grega pelas lições nela contidas para a economia brasileira neste ano eleitoral.
Uma razão é o risco de que se repita algo semelhante ao que ocorreu na crise asiática de 1997, cuja primeira manifestação foi o desmonte do baht tailandês. As repercussões imediatas atingiram os vizinhos de continente. Depois, os desdobramentos da desconfiança nas dívidas soberanas atingiram seu auge no default russo de agosto de 1998. Por fim, as reprecificações de risco nos mercados de renda fixa afetaram os ativos financeiros globais, com a crise do fundo LTCM em setembro e a quebra do Bankers Trust, que foi adquirido pelo Deutsche em novembro do mesmo ano. No Brasil, todos se lembrarão da dramática transição de mandato de FHC-I para FHC-II, uma desastrosa mudança de regime cambial, um compromisso de mudança na política fiscal e o regime de metas de inflação.
Outra razão são as muralhas políticas, que mesmo um governo com três meses de mandato não consegue superar, para anunciar medidas fiscais a fim de permitir que a cavalaria monetária europeia possa vir em socorro da seca financeira que asfixia a economia grega.
Um grau de contágio já está em andamento, e as razões estão nos fatores comuns que a Grécia tem com os demais Piigs (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). A reprecificação do risco soberano já atingiu os mercados de dívidas, punindo mais os países com câmbio administrado e pressionando as taxas de câmbio flutuantes em toda parte, inclusive no Brasil. Isso mostra que os elementos para o contágio à la Ásia-97 já estão presentes. Na versão Europa-2010, os Piigs desempenhariam um papel semelhante ao que coube aos tigres asiáticos, cujo modelo de crescimento com abertura financeira e câmbio fixo permitiu um longo período de financiamento barato, com relativamente pequeno crescimento da produtividade total dos fatores. Há treze anos, o risco de default era considerado desprezível, especialmente porque as instituições multilaterais de Washington consideravam os países envolvidos como modelo, fascinadas e orgulhosas pelo "milagre asiático", caracterizado por "intervenções inteligentes" e coordenadas (a mão visível esperta), o câmbio fixo e fartos subsídios governamentais para os investidores privados nos setores escolhidos. Quando um tijolo foi desmontado, toda a precária construção foi revelada.
No caso atual, a ação do governo alemão talvez seja a única forma de socorro externo viável imediato, diante da impotência do governo europeu, da inapetência do FMI e da inconsequência dos políticos gregos, que continuam a incendiar as ruas com promessas que não podem cumprir. O Tratado de Maastricht e o Pacto de Estabilidade e Crescimento não construíram barreiras ao expansionismo fiscal, como é necessário para evitar que a moeda única se fragilize na periferia, como num regime de câmbio fixo. Se a única sanção efetiva é a expulsão da união monetária, a ameaça é equivalente à da bomba nuclear, ou seja, alternativa extrema para não ser usada.
No Brasil, a mudança do câmbio administrado de 1997-98 para a flutuação de 2010 não dispensou a necessidade de disciplina fiscal para enfrentar o problema de credibilidade, sob pena de uma política de juros paralisante. Estamos em nova encruzilhada fiscal. A continuidade da política macroeconômica brasileira que resultou da crise, se não chegou a comandar o consenso que ocorreu no Chile a partir da redemocratização, gerou os resultados e o volume de reservas internacionais que reforçam as apostas na resistência ao contágio. Mas faz falta, no espectro político brasileiro, alguma força de expressão com a coragem de dizer aos eleitores a necessidade de fazer voltar aos trilhos o regime fiscal. Alguém se habilita a substituir o foco de "continuar programas" por "buscar a coerência orçamentária"? Economista, diretor da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG. |