A tentativa de extrapolar cenários confiáveis dos dados de alta frequência é uma receita certa para a volatilidade. Que o digam os mercados, atordoados em meio à ambiguidade dos indicadores da economia americana. Que o digam também os analistas, perdidos no fogo cruzado dos formadores de opinião, que têm contribuído mais para uma confusão generalizada do que para um debate esclarecedor. De um lado, um mercado de trabalho combalido, ainda muito longe da recuperação, e algumas evidências de que certos setores da economia não aguentam a remoção gradual dos estímulos. De outro, os lucros saudáveis das empresas no segundo trimestre e as projeções otimistas para os próximos meses. O resultado são opiniões desencontradas, formuladas sobre cenários mal delineados, com direito a tons variados de otimismo cauteloso e pessimismo exacerbado. O que, afinal, está acontecendo com a economia americana? Uma interpretação é que a recuperação está seguindo o seu curso natural, não-monotônico, porém consistente com uma lenta e gradual retomada da atividade. Dificilmente as recuperações, sobretudo as que seguem crises severas, se caracterizam por trajetórias unidirecionais. É normal que depois de um período de crescimento mais vigoroso haja um arrefecimento, com direito, inclusive, à interrupção, antes da retomada em ritmo mais lento do que o anterior. Essa parece ser a visão de alguns membros do comitê de política monetária do Fed, que recentemente declararam, para o horror de alguns, que é cedo para falar em extensão das políticas de afrouxamento quantitativo. Se esse for o cenário de referência, é imprudente considerar políticas de estímulo adicionais, quando os indicadores fiscais já estão comprometidos, mesmo que isso signifique que o presidente Obama continue a ser bombardeado pelos lobbies dos pequenos e médios empresários. Outra visão é que os EUA caminham para um cenário de estagnação prolongada à Japão, caso as autoridades não cedam aos impulsos expansionistas. Embora essa opinião tenha um potencial midiático mais evidente, é exagerada quando se consideram as causas da Grande Estagnação japonesa da década de 90. Como os EUA, o Japão sofreu uma grave crise financeira resultante de um excesso de alavancagem durante uma época de grande euforia. Mas as semelhanças param poraí. As autoridades japonesas não souberam lidar com os bancos moribundos e os balanços corporativos danificados quando a bolha estourou. O excesso de endividamento das empresas impediu que o investimento impulsionasse a demanda, e a dinâmica demográfica adversa foi um obstáculo ao consumo como forma de compensar a ausência de investimento. O setor público japonês acabou tendo de assumir as dívidas privadas, resultando numa das maiores relações dívida/PIB entre as economias avançadas. E o Banco do Japão nunca conseguiu convencer ninguém das suas intenções inflacionistas, que, de fato, eram inexistentes. Diferentemente do caso japonês, as empresas americanas estão líquidas, pouco alavancadas e exibem um grau de produtividade invejável, do qual a Apple de Steven Jobs é emblemática. A dinâmica populacional tampouco é comparável. O endividamento do setor público é um problema, mas há uma preocupação com as implicações de longo prazo, refletidas na indicação de Jack Lew, o mago fiscal da era Clinton, para diretor do Office of Management and Budget. E o Fed não pode ser acusado de não ter feito o possível para evitar uma espiral deflacionária, quando o seu balanço inflou mais de 150% desde 2008. O barulho em torno da economia americana, sobretudo os temores japoneses, parecem mais apropriados para a zona do euro, que atende a todas as qualificações expostas acima. Mas, se o alento é o dinamismo da Alemanha, o calcanhar de Aquiles é a herança anti-inflacionária do Bundesbank, que impede uma ação mais enérgica do Banco Central Europeu. Até nisso as farpas de Paul Krugman³ erraram o alvo. Economistas, são diretor e sócia da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG. ³ "The Feckless Fed"; New York Times, 11/07/2010. |